IMG_1081Jutta recebe Hildegarda e seus pais.

Jutta nasceu em 1092 e ela tinha apenas 6 anos à mais do que Hildegarda de Bingen quando a encontrou. Ela era filha do Senhor de Spanheim, que possuía seu castelo perto de Bad Kreuznach1, às margens do rio Nahe2, portanto, não muito longe de onde morava a família de Hildegarda. Os Spanheim tinham uma boa relação com a família de Hildegarda e ambos eram nobres.

O pai de Jutta morreu quando ela ainda tinha 3 anos e sua mãe se ocupou sozinha de seus 3 filhos. Quando Jutta tinha 12 anos, ela ficou gravemente doente e sua cura foi mesmo um milagre.

Foi então que Jutta tomou uma decisão que mudaria completamente o curso de sua vida: apesar da pressão de sua família, ela expressa firmemente o desejo de tornar-se religiosa e recusa todos os pedidos de casamento que lhe foram propostos.

Decidida, Jutta procura o Arcebispo Ruthard de Mayence para lhe pedir que fosse consagrada e pudesse se tornar uma religiosa. Rapidamente, a reputação de Jutta - que vivia uma vida muito santa no convento de Disibodenberg - se alastra pela região fazendo com que muitas pessoas viessem procurá-la para ter conforto, conselhos e apoio.

IMG_8050Iluminura mostrando uma abadessa entre suas discípulas.

Porém, muito diferente da futura abadessa de Rupertsberg, ou seja, de Hildegarda, Jutta praticava um ascetismo3 extremo. Por certo, devido à essa razão e também por causa de sua saúde frágil, Jutta veio à falecer subitamente... Ela recusava-se comer carne e alimentava-se ainda mais frugalmente dos que os religiosos o faziam. Ela também ficava acordada em oração até altas horas da madrugada, muitas vezes, em jejum – Jutta jejuava imensamente e prolongava a regra de São Bento num tempo consideravelmente mais longo do que a própria regra especificava.

Além disso, Jutta praticava mortificações4 (algo que jamais passou pela cabeça de Hildegarda em fazê-lo ou recomendar aos outros que o fizessem) e colocava contra sua pele uma espécie de corrente com dentes que chegavam à entrar em seu corpo e lhe causar graves escarificações.

Infelizmente, Hildegarda descobriu isso muito tarde: foi somente na ocasião da morte de Jutta, no dia 22 de dezembro de 1136, no momento em que Hildegarda a despia para poder preparar seu corpo para os ritos funerários que ela descobriu que Jutta era adepta das mortificações. Esta experiência marcou Hildegarda profundamente – para sempre.

Notas: 

  1. Bad Kreuznach é uma cidade alemã próxima ao rio Nahe. A cidade é conhecida intercionalmente graças aos seus vinhos riesling, sylvaner e müller-thurgau;
  2. O Rio Nahe é um rio alemão, cuja nascente localiza-se no nordeste do estado alemão de Sarre. No seu percurso até o Rio Reno passa pela Renânia-Palatinado;
  3. Prática da abstenção de prazeres e até do conforto material, adotada com o fim de alcançar a perfeição moral e espiritual; caracteriza-se pela dieta rigorosa e pelos jejuns freqüentes que podem ser ou não acompanhados de flagelação ou mortificação. Preceito, moral ou comportamento de quem busca a perfeição espiritual, através dessa prática. O ascetismo pode ser encontrado em diversas religiões e doutrinas. Assim como Jutta, na Idade Média, muitos cristãos praticavam o ascetismo acompanhado de castigos físicos e flagelações;
  4. Mortificação da carne, a penitência a que os cristãos se entregam para amortecer as paixões. A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências malignas que o pecado original ainda exerce nas almas, inclusive depois que o batismo as regenerou.

Iluminura - Fonte:

London, BL MS Royal 6 E VI f. 27 Iluminura retratando uma abadessa e suas discípula. (ORIGINAL:  Only copy of Omne Bonum, an (incomplete) encyclopedia compiled by James Palmer in in the 3rd quarter of the 14th century and illustrated by AN Other. This is the illustration for (guess what) Abbatissa.)

Bibliografia:

- Textos do MUSEUM AM STROM de Bingen sobre a vida e obra de Hildegarda de Bingen (original em francês: Textes des tablettes de la nouvelle exposition permanente “Hildegarde de Bingen”);

- BREINDL Ellen, Hildegarde de Bingen: Une vie, une oeuvre, un art de guérir en âme et en corps, Editions Dangles, 2010

Agradecimentos:

Muito obrigada à Sarita Testoni por sua gentileza e colaboração na elaboração deste texto.

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